Tentiva de cura gay envolvendo médico psiquiatra de Maringá e professor universitário vira repercussão nacional

 

Imagem Ilustrativa - Foto: Portal Gov

"Essas histórias eu guardei comigo por muitos anos. Sempre tive vergonha de falar, talvez por medo do julgamento, talvez por querer proteger quem estava ao meu redor. Quando fui para o Rio de Janeiro lutar pelos meus sonhos, enfrentei tudo e todos, inclusive minha própria família. Meu pai foi contra. Minha mãe, por outro lado, me ajudou, mas sofreu junto comigo.

Lembro que, quando ela foi me visitar, voltou chorando. Foram quinze horas de viagem, lágrimas silenciosas e um aperto no peito por saber que seu filho estava sozinho em uma das cidades mais perigosas do Brasil. E eu nunca soube disso até muito tempo depois.

Guardei essa história de pedofilia da minha mãe até dois anos atrás. Já do meu pai, escondi até recentemente. Só contei quando minha saúde desmoronou, quando a síndrome do pânico tomou conta de mim e precisei enfrentar tudo o que eu evitava há tanto tempo. Foi saindo do consultório médico que, pela primeira vez, ele soube da verdade", conta o jornalista Michel Hajime que foi repórter de várias emisora no estado do Paraná.

Sobre sua história, Michel Hajime divulgou publicamente:

"Tudo começou em julho de 2024. Quando comecei a enfrentar problemas de saúde. Inicialmente, suspeitávamos de Coqueluche devido às viagens a São Paulo e Santa Catarina. Após o descarte dessa possibilidade, cogitou-se Tuberculose, que também foi descartada.

Em um momento de pico na minha saúde, eu cheguei ao Hospital Universitário de Maringá com a pressão alta. No entanto, a reação que recebi foi inacreditável. Fui informado de que só seria atendido caso estivesse quase morrendo. Além disso, ainda riram de mim e disseram que eu não tinha nada, que aquilo era só frescura. Sem mais nem menos, me mandaram de volta para casa, sem o devido cuidado.

Depois de uma bateria de exames (pois todas as hipóteses precisavam ser consideradas, especialmente devido às viagens interestaduais, incluindo até mesmo a possibilidade de Leptospirose) e acompanhamento médico (sempre mantendo meus vínculos empregatícios, inclusive estando de atestado, já que sou CLT em apenas um dos vínculos e prestador de serviços nos outros dois), passei mal no meu trabalho, na universidade onde dava aula, e quase perdi meu emprego, já era prestador de serviço. Foi aí que, com o agravamento da situação, fui até a médica novamente e pressionei para que ela me desse uma explicação.

Ela me olhou e disse: "Michel, o que você tem é síndrome do pânico." Na hora, eu fiquei em choque. Pensei: “Mas a minha vida está normal, o que está acontecendo?” E ela respondeu: "Ok, mas a síndrome do pânico pode estar ligada ao passado", que justificaram meus sintomas: pressão alta, arritmia cardíaca, fraqueza, formigamento nas mãos e boca, boca seca, dores musculares, tontura, alta desidratação e, na fase final, manchas no corpo, que inicialmente pensamos serem relacionadas à varíola dos macacos, mas que, na realidade, estavam associadas aos problemas psicológicos. Foi aí que tudo fez sentido e eu comecei a buscar respostas.

Aferição de presão arterial - Foto: Arquivo pessoal
 

Por muito tempo, neguei. Não acreditava que fosse síndrome do pânico. Insisti em levar a vida como se estivesse tudo bem, mas, aos poucos, percebi que não dava mais. 

Comecei a perceber que havia lacunas na minha vida que estavam me adoecendo. Não eram questões do presente, mas algo que vinha de dentro, algo não resolvido, que foi me prejudicando ao longo do tempo. A síndrome do pânico não apareceu do nada, mas como um reflexo do que eu estava carregando dentro de mim, sem saber.

Foi nesse momento que a busca pelo que estava acontecendo comigo se transformou em uma jornada de autoconhecimento. Eu comecei a entender que as minhas dificuldades, as minhas angústias, estavam ligadas a experiências e sentimentos não resolvidos no meu passado. Isso não foi fácil de aceitar, mas, ao mesmo tempo, foi o que me trouxe um grande alívio. O fato de eu ter entendido a origem dos meus problemas me deu uma sensação de libertação, algo que eu não sabia que precisava.

Agora, ao olhar para trás, vejo que o maior desafio não foi lidar com os sintomas, mas entender que aquilo estava relacionado com uma parte de mim que eu nunca tinha confrontado. Quando eu finalmente me dei conta disso, pude começar o processo de cura, e cada passo, por menor que fosse, trouxe um peso a menos sobre os meus ombros.

Entendi que precisava me abrir, contar minha história, para me libertar de um passado que tanto me machucava. Só que sabia que, ao fazer isso, enfrentaria um luto profundo.

Quando pensei em contar sobre a minha história, fiquei muito preocupado. O primeiro medo que me veio foi o de que as pessoas pudessem debochar, que pensassem que eu estava me vitimizando. E, mais do que isso, a ideia de que eu poderia estar fechando as portas para os meus sonhos para sempre, me fez hesitar ainda mais.

Eu já havia desistido de tantos sonhos e, dessa vez, teria que abrir mão de mais um. Isso porque, no Brasil, as oportunidades em emissoras de TV são limitadas, e falar sobre o que vivi significaria fechar muitas portas. Provavelmente, eu nunca mais conseguiria trabalhar na área. Mesmo assim, era essencial escolher a minha saúde, a minha vida.

Compartilhar minha experiência é a forma que encontrei de ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo. Isso vai além do mercado de comunicação, porque o que vivi reflete problemas presentes em várias áreas: prostituição, assédio, preconceito. As pessoas se submetem a essas situações porque, se não o fizerem, não conseguem espaço.

É difícil, mas a síndrome do pânico não é frescura. O preconceito que enfrentamos é real. Falar sobre isso dói, mas também é um passo para superar e, quem sabe, inspirar outros a fazerem o mesmo".



"Quando eu completei 18 anos, não sei bem como ficaram sabendo, mas uma produtora de filmes adultos soube da minha história. Naquele momento, estava em alta aquele movimento de ex-famosos indo para essa indústria pornô, e foi aí que me fizeram o convite: queriam saber se eu estaria disposto a expor minha história e participar. Claro que eu recusei. Eu sabia que isso poderia prejudicar todos os meus planos para o futuro, especialmente para quem tinha o desejo de seguir uma carreira na arte. Naquele tempo, atores de filmes adultos eram vistos como pessoas de um submundo, completamente estigmatizados e marginalizados pela sociedade. Hoje, as coisas mudaram e, de certa forma, esses profissionais são mais aceitos, alguns até se tornaram milionários. Mas naquela época, o meu sonho era outro: eu queria, de qualquer jeito, seguir minha carreira artística, sem estar preso a rótulos" conta Hajime.


Sonho pela fala uma fábrica de dinheiro para golpistas

Michel Hajime: "É revoltante e completamente inaceitável como o mundo, muitas vezes, lucra com a desgraça dos outros! Infelizmente, vemos isso o tempo todo. Existem golpistas que aproveitam também do sonho das pessoas para ganhar dinheiro, sem a mínima preocupação com o que vão causar na vida delas. Um exemplo disso são essas falsas agências de modelos que surgem prometendo fama e sucesso, mas, na realidade, só fazem jogar esses jovens na prostituição, em riscos, ou até mesmo no nada! 

Essas "agências", se apresentam como empresas de modelos, viajam por estados oferecendo oportunidades em novelas, fazendo promessas de que a pessoa pode se tornar famosa, tudo para enganar esses jovens que têm o sonho do estrelato.

O que essas pessoas fazem? Elas ganham dinheiro com a viagem, com a excursão! Pegam os jovens, os colocam em um ônibus, os mandam para o Rio de Janeiro. Eles não têm vínculo algum com a emissora, estão ali para explorar, jogar os jovens na rua e só tirar lucro da viagem deles. Quando o jovem chega lá, tudo desmorona! Eles ficam saber o que fazer, sem perspectiva, sem apoio! Dizer que conseguirão conciliar estudo e trabalho, o que é mentira. E que o dinheiro vai dar para se manter. Tudo mentira também!

A verdade é que a figuração é freelancer, com um valor extremamente baixo e sem garantia de nada! Eles jogam esses jovens à mercê de tudo e, no fim, acabam com o que? Com mais sonhos despedaçados, perdendo tempo, dinheiro e até se envolvendo com drogas ou prostituição. O pior de tudo é que eles ainda perdem anos de estudo! É um golpe imundo, sujo, e precisamos falar sobre isso, gritar contra essa injustiça!"

Falsificação de documento, novelas nem poderiam estar no ar devido a direitos autorais de uso de imagem de menores de idade

Em denúnica polêmica, o jornalista exclama: É inacreditável e revoltante o que essas agências golpistas fazem com os jovens que só querem um pouco de sucesso e uma chance na vida! A agência Londrina, que me levou para ser figurante, cometeu um erro gravíssimo, um crime, e o pior de tudo: poderia arrastar uma grande emissora de tv para essa lama! 

Três jovens não conseguiram a emancipação necessária para participar da gravação como figurantes, e o que a agência fez? Simplesmente pegou o RG de outros três jovens e passou os documentos para que eles gravassem no lugar dos primeiros! Ou seja, essas três pessoas assinaram uma autorização com o nome errado, assinando em nome de outras pessoas!

Isso é um crime! Isso é falsificação de documento, conforme o artigo 298 do Código Penal! E não para por aí, porque o pior é o impacto disso nos direitos autorais e na imagem dos menores de idade. A novela foi ao ar, com as imagens desses jovens sendo veiculadas sem a devida autorização legal. Isso viola diretamente o Estatuto da Criança e do Adolescente, especificamente o artigo 81, que exige a autorização de um responsável para a veiculação da imagem de menores! Eles usaram a imagem dessas pessoas de forma totalmente irregular, e o pior é que a novela foi reprisada, espalhando ainda mais a violação!

E o que é mais grave: esse erro coloca a emissora em uma situação jurídica complicada, pois ela pode ser responsabilizada por essa violação de direitos! Isso é um golpe imundo, que coloca os jovens à mercê, mas também afeta outras pessoas e empresas ligadas a essa produção televisiva.

Essas agências golpistas não têm vergonha nenhuma! Elas manipulam e exploram os sonhos dos jovens para lucrar em cima disso, e ainda arrastam grandes empresas para o fundo do poço, sem pensar nas consequências! Os jovens perdem tempo, dinheiro e até o futuro por causa desses golpistas, e o pior é que o dano jurídico ainda pode atingir quem não tem nada a ver com isso! É uma revolta que dá vontade de gritar para o mundo ver!".


Rascimo, Xenofobia, Homofobia - O Nazismo no sul do Brasil

"Muitas das pessoas que buscam a televisão, ou a fama de modo geral, são movidas pela ilusão que as feridas do passado serão curadas pelo reconhecimento público. Pessoas que sofreram bullying, enfrentaram rejeições ou traumas na infância e entram nesse mundo tentando provar algo para si mesmas e para os outros. É uma forma de se reerguer, de superar marcas profundas, de mostrar ao mundo que hoje elas são alguém. É como se estivessem buscando uma validação que nunca receberam.

Outras entram por acreditar que a fama é sinônimo de dinheiro e sucesso. Mas a verdade é que a televisão também não enriquece ninguém facilmente, assim como hoje também a internet. A maioria das emissoras superfatura os salários de alguns profissionais, criando essa imagem de glamour, mas isso é, na verdade, uma estratégia de marketing. Enquanto poucos ganham cifras exorbitantes, muitos outros recebem salários muito baixos, quase incompatíveis com a dedicação e o esforço exigidos. É um universo fascinante, mas que deve ser encarado com os pés no chão e sem perder de vista a realidade", revela o jornalista e professor de comunicação universitário.


Homofobia e ameaça de agressão na TV

"Trabalhar na televisão sempre pareceu fascinante para quem via de fora. A mágica da tela, os holofotes, a sensação de estar criando algo grandioso. Mas, por trás das câmeras, o que existia muitas vezes era um ambiente duro, carregado de preconceitos e ego. E eu sentia isso na pele.

Naquele dia, minha rotina foi tão corrida que eu mal tive tempo de me preparar. Pela manhã, fazia produção; à tarde, estava gravando em uma loja. Não havia luxo de tempo para ajustes ou caprichos, só a pressão para tudo sair perfeito. Durante uma pausa, olhei no espelho e decidi retocar a maquiagem. Coisa simples, parte do trabalho, essencial para quem está na frente das câmeras.

Enquanto passava o pó, o cinegrafista se aproximou. A expressão no rosto dele já anunciava o tom agressivo que viria. 'Se você retocar a maquiagem de novo eu vou arrebentar a tua cara.'

As palavras bateram como um soco. Por um instante, fiquei sem reação. Era tão absurdo, tão grotesco, que parecia fora da realidade. Eu olhei para ele, tentando entender se aquilo era uma piada de mau gosto. Não era. A raiva nos olhos dele deixava claro que ele falava sério.

O mais revoltante era o contexto. Na televisão, maquiagem não era um capricho. Era necessário, um padrão básico de trabalho, inclusive para homens. E ali estava eu, com o microfone da Record na mão, tentando fazer meu trabalho, sendo tratado com uma violência verbal que não fazia sentido.

E como se isso não bastasse, as vendedoras da loja, que assistiam de longe, resolveram comentar. "Nossa, que horror, né? Televisão realmente é uma podridão."

A vergonha me consumiu. Aquela situação absurda e constrangedora. Tudo o que eu queria era fazer meu trabalho com dignidade. Mas, naquele momento, percebi o quanto aquele ambiente podia ser tóxico e desumano.

Voltei à gravação tentando engolir o nó na garganta. Não era só tristeza ou raiva. Era o peso de perceber que, no mundo onde aparência e imagem são tudo, as pessoas por trás das câmeras podem ser reduzidas a nada. E isso era difícil de aceitar, conta Michel Hajime indgnado.

Tem que falar como homem

Em uma emussora onde Michel Hajime diz ter passado os piores momentos de sua vida, ele conta sobre um fato que marou muito, "minha chefe me chamou de forma quase casual para uma conversa. Não demorou para que o tom da conversa mudasse. Com um sorriso debochado no rosto, ela soltou a bomba: "A diretora de jornalismo estadual, disse que você é muito gay, muito afeminado. Ela não gosta de te ver no vídeo e acha que você precisa se masculinizar, engrossar a voz."

A maneira como ela dizia aquilo, como se fosse uma piada interna ou algo trivial, me deixou sem palavras. Não havia empatia, apenas um prazer mórbido em me humilhar. Enquanto eu digeria aquelas palavras, tentando entender o que poderia fazer diante de tanta injustiça, as ações começaram a falar ainda mais alto.

Pouco tempo depois, as passagens — minha participação visível nas reportagens — começaram a ser cortadas. Passagem é o nome dado a parte do que o repórter aparece no vídeo, conectando meu rosto e minha voz ao público. Só que, de forma cirúrgica, essas partes foram sendo eliminadas. A diretora de jornalismo estava claramente me apagando, uma decisão calculada para me colocar de escanteio, para dizer sem palavras que eu não era bem-vindo como eu sou.

A revolta crescia dentro de mim, mas a sensação de impotência era esmagadora. Eu estava sendo silenciado, invisibilizado por algo que não tinha nada a ver com a qualidade do meu trabalho, mas com quem eu sou. Como podem, em pleno século XXI, exigir que alguém negue sua essência para caber em um molde preconceituoso e retrógrado?

Eu sou gay, sim. E ser afeminado, ter minha voz, meu jeito, minha autenticidade, nunca deveria ser motivo para ser calado ou excluído. Aquilo não era apenas preconceito, era uma tentativa descarada de apagar a minha existência. E isso, eu nunca vou aceitar".


Michel Hajime conta também que: "Durante a gravação da novela, vivi um dos momentos mais constrangedores e humilhantes da minha vida. Um assistente de direção, um homem que até então eu respeitava, me colocou em uma cena com o propósito claro de me expor e me diminuir. Ele pediu que eu beijasse uma figurante, algo que eu recusei de imediato. Ele percebeu que eu era gay e fez disso uma oportunidade de me humilhar publicamente.

O lugar onde ele me posicionou na cena era propositalmente no canto, fora de enquadramento. Ou seja, não havia qualquer razão técnica ou artística para eu estar ali. Era uma armação deliberada, com a intenção de me ridicularizar. Durante a gravação, ele insistia que eu beijasse a menina, enquanto os outros riam. Eu me sentia cada vez mais constrangido, sufocado e sozinho.

A humilhação foi tamanha que, ao final daquele dia, pedi para voltar para casa. Liguei para minha mãe, desabafei meu desespero e disse que queria abandonar tudo e voltar para minha cidade natal. Só anos depois, ao receber o diagnóstico de fobia social, entendi que aquele dia foi um marco. Foi a primeira vez que experimentei os sintomas dessa condição, algo que carreguei comigo desde então.

É inaceitável que situações como essa aconteçam, que a orientação sexual de alguém seja usada como motivo de zombaria. Precisamos expor histórias assim para que o respeito prevaleça e que ninguém mais passe pelo que eu passei".

Humilhação deliberada a todos os funcionários operacionais (figurantes, limpeza, portaria etc)

Hajime conta que ele não foi a única vítima, sendo a opressão algo generalizado: "Quando eu fui trabalhar nessa empresa, já sabia que enfrentaria dificuldades, mas o que vivi foi algo que nunca imaginei. Eu estava com pouco dinheiro, com poucos recursos, e a alimentação era algo essencial para mim. Dentro da sede da emissora, tínhamos o direito de almoçar lá, e o restaurante que nos ofereciam era conhecido como "podrão". A comida era de péssima qualidade, fraca, insossa. E o pior: as pessoas sempre falavam que encontravam cabelo na comida.

Eu, que já passava por tantas dificuldades, comia ali rezando para nunca encontrar nada. A alimentação era uma das poucas coisas que eu tinha, e eu dependia dela. Porém, em uma dessas refeições, um menino que morava comigo encontrou um tufo de cabelo na comida. Não era um simples cabelo que caiu, era algo que foi colocado ali de propósito. Algo que não dá pra entender, a não ser como uma forma de humilhação deliberada.

E o mais revoltante é que, apesar das inúmeras reclamações dos funcionários, a empresa nunca fez nada. A humilhação era constante, dia após dia. A hierarquia ali era cruel, e os mais altos no organograma se sentiam no direito de humilhar os que estavam em posições mais baixas, como se fosse algo natural. Esse restaurante, e o tratamento que ele representa, é motivo de comentários constantes, pela sujeira, pela falta de respeito e pela forma como tudo parecia feito de propósito, para nos diminuir ainda mais.

Às vezes, a única esperança era quando a gente podia almoçar nos bufês, nos pontos de apoio. Quando a comida vinha de lá, era uma raridade. Mas nesses dias, os diretores, os atores, as pessoas poderosas da empresa também comiam. E nós, que éramos figurantes, sempre éramos os últimos a comer. O que restava era o que sobrava pra gente. Muitas vezes, nos víamos comendo restos de comida, sem reposição, até com casca de arroz. Era humilhante. Ficar ali, esperando para comer o que ninguém queria, era um golpe na nossa dignidade".

Demitido no meu primeiro dia por ser gay

"No meu primeiro dia, fui demitido por ser homossexual. Ao chegar na sede da emissora a apresentadora me pegou pelo braço e me arrastou para o camarim, dizendo que o diretor havia me demitido unicamente pela minha sexualidade. Além disso, ela me contou que um cinegrafista, completamente homofóbico, havia mentido dizendo que eu teria dado em cima dele.

Esse cinegrafista é o tipo de pessoa que adora passar por cima dos outros, derrubando quem aparece na sua frente. E a apresentadora já havia perdido outros dois produtores e dois repórteres, e que eu iria assumir as vagas e ela não poderia ficar sem alguém. Ela me disse que mostrou o contrato para o diretor onde tinha a cláusula que a equipe era dela e que ela contratava quem bem entender. E que eu ficaria graças a ela, mas que eu não poderia cometer nenhum erro, porque qualquer deslize comprometeria ela. Ela me segurou na emissora, e foi por ela que eu continuei lá. Fiquei, conquistei meu espaço, mas, por trás disso, tive que enfrentar o preconceito, não só por parte do cinegrafista, mas também do diretor da época, que era absolutamente homofóbico. Isso me marcou profundamente e me fez ver até onde vai a hipocrisia de um sistema que diz pregar igualdade, mas, na prática, discrimina e rejeita quem não se encaixa no molde", relata o jornalista.

Jornalismo, uma decadência cada vez maior

É revoltante e inaceitável que, em um ambiente onde o respeito às leis e à ética deveria ser prioridade, eu encontre profissionais – ou melhor, pessoas que atuam no jornalismo de forma completamente inadequada. Em várias emissoras de TV, eu vi repórteres e cinegrafistas armados, algo totalmente absurdo e fora de qualquer lógica de um jornalismo responsável. Isso levanta sérios questionamentos sobre a segurança e a idoneidade dessas pessoas. Como é possível confiar em quem deveria prezar pela palavra, pela ética e pelo diálogo, mas opta por agir com força e intimidação?

A posse de arma de fogo no Brasil é regulada pela Lei nº 10.826/2003, o Estatuto do Desarmamento, que estabelece critérios rigorosos, como comprovação de aptidão psicológica, ocupação lícita e efetiva necessidade. Mesmo assim, é completamente injustificável o uso de armas por pessoas que trabalham em ambientes jornalísticos. Isso não apenas ameaça a segurança, mas também desonra a profissão.

Outro ponto que me causa indignação é que muitos desses profissionais nem são formados em jornalismo. Desde que o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma em 2009, a profissão ficou banalizada. Muitas pessoas que se dizem jornalistas não têm compromisso com os princípios éticos da profissão, como estabelece o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que exige verdade, responsabilidade social e respeito. Isso acaba manchando a imagem dos verdadeiros profissionais, que têm sua credibilidade questionada por causa de atitudes como essas.

E o mais grave de tudo: eu enfrentei situações de homofobia por parte de alguns desses "profissionais". Isso é inaceitável! A homofobia é crime, prevista na Lei nº 7.716/1989, que inclui a discriminação por orientação sexual. É uma vergonha que, em uma profissão que deveria ser modelo de inclusão, respeito e ética, eu tenha que lidar com pessoas tão despreparadas e preconceituosas.

Como confiar em quem deveria informar com responsabilidade, mas desrespeita a ética e os fundamentos do jornalismo? O verdadeiro jornalista não age assim. Ele é comprometido com a verdade, com a imparcialidade e, acima de tudo, com o respeito ao próximo. Essas atitudes não só envergonham a profissão, mas também colocam em risco a dignidade do ofício e de quem trabalha de forma honesta.

O jornalismo e o julgamento do público

"Quando eu era criança, minha mãe fazia muita questão de acompanhar meus estudos. Muitas vezes, enquanto eu estudava, ela me dava um texto chamado:`O Palhaço Também Chora'. Parece até que ela já previa um pouco do meu futuro. A história falava sobre o palhaço que leva alegria para as pessoas, mas que também tem sentimentos, dores e tristezas. Isso sempre me marcou muito e me faz lembrar do caso do Dedé Santana, que continuou se apresentando no picadeiro enquanto seu pai era velado atrás das cortinas.

E assim é a profissão do jornalista. Muitas vezes, somos criticados por anunciar uma notícia triste e, logo em seguida, uma notícia alegre. Mas o que as pessoas não entendem é que, como jornalistas, somos intérpretes das notícias. Estamos ali interpretando, como atores, o papel que a informação exige. E, por trás disso, somos humanos, com problemas e mágoas, vivendo nossas próprias lutas pessoais.

Quantas vezes um jornalista entra no ar carregando um problema pessoal, mas precisa sorrir, brincar e levar leveza ao público? E então as pessoas julgam: "Olha quanta falsidade!". Mas elas não sabem que aquele sorriso é um ato de profissionalismo, uma forma de cumprir seu papel mesmo diante das adversidades. Infelizmente, muitos não conseguem separar o ser humano por trás da profissão, esperando que sejamos felizes o tempo todo. E, como o palhaço da história, carregamos sentimentos que muitas vezes ninguém vê.

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